terça-feira, 21 de junho de 2011

A TRAGICÔMICA MORTE DE DARCY SUJEIRA (TEXTO INTEGRAL)

Fala galera, depois de longo inverno e de uma ausência sem qualquer desculpa plausível, o "C`est quoi ce bordel" volta para a publicação integral de:


A tragicômica morte de Darcy Sujeira (Parte 1)

por Gustavo Caldas Brito

Daqui do alto do meu puleiro vi "quase" de tudo nessa casa. De despacho na sala de estar a dois amantes no armário. Confesso que muitas vezes tentei gritar,mas como só repito,não conhecia a palavra socorro...nem meus donos!

Meu pai,Seu Jorginho, era comerciante/traficante de aves raras,flamenguista de quatro costados e senil já na tenra idade (isso explica a preferência esportiva). Minha mãe era Dona Lola (ela detestava ser chamada assim,por isso insisto),mulher do norte,forte,de traços duros,cadeiras bem desenhadas e uma volúpia que deus me livre! Desculpem se não descrevo nosso bairro,ou ao menos nossa rua,daqui de cima vejo a sala,escuto banheiros e cozinha,mas da porta pra fora é o que Platão chamava de "além-caverna",nunca tive a chance.

Nossa sala era,pra ficar no mínimo,um bordel. Centenas de bibelôs,um urubuzinho do lado de São Judas Tadeu,um tapete de couro de vaca que,se pudesse falar,faria mais estrago que eu (e ao qual chamo "mimosa"),uma telefunken das antigas e um sofá gozado (gozado de engraçado,estranho ok?). Tá! Era gozado também. Minha sala é minha sala porque meus donos eram meio porcos e loucos,curtiam meus comentários durante a novela das oito. Pra começar,nem era pra eu estar aqui,era pra eu estar com a prima da Dona Lola,a Tita,uma deliciosa sambista bronzeada e solteira,autobatizada "beata dos infernos". Mas por infortúnio vim parar aqui,o Carlão (amante ou pau amigo da Tita, chamem como quiserem) não gostava muito de bichos,dizia que lembrava bichas,e por isso fui doado/despejado pra casa do Seu Jorginho e Dona Lola...

A rotina dos meus pais era bem agitada,pro trabalho e pro lazer. Durante a semana Jorginho passava o dia nas matas,caçando pardal,andorinha,periquito e araras enquanto aqui vinha sempre um pessoal passear nas matas da Dona Lola (parece que estavam atrás da periquita dela). É isso mesmo, Dona Lola era uma safada, daquelas de quatro costados,de ladinho e de tudo quanto é jeito! Era o Seu Jorginho virar as costas para os leiteiros da rua correrem para a ordenha diár...calma aê,vem gente aí! Daqui a pouco continuo.

Ah...tudo bem,é a Tita...olha que gostosurice latente! Não fosse o Carlão eu olharia pra isso tudo todo dia...merda! Vida de papagaio é difícil cara,se a gente repete muito neguinho fica puto,se repetimos pouco ameaçam jogar a gente fora!
Mas enfim,deixa ouvir aqui a conversa:

Carlão - ô nega,esse papagaio ainda tá vivo?
Tita - ele é lindo né,tão meiguinho,olha a carinha de tadinho dele!ehehheheh
Carlão- meiguinho pra mim é viado e viado tem que morrer!
Tita- quê isso Carlão,trauma do seu pai?
Carlão- já te falei pra não falar do papai assim,ele não é viado,é homossexual...
Tita- ah tá...tá bom...

*a conversa se muda para a cozinha

Ahahhahha,a Tita não perde a chance de alfinetar o Carlão! Sacanear um Creoulo (pelo porte e pela largura é Creoulo com "e" de energumeno) era um perigo gigante,ainda mais sendo o Carlão uma completa besta. Mas por trás da besta do Carlão havia um dócil e amável idiota,que corria atrás da Tita que nem cão abandonado. Cão abandonado que virava gato e sapato pelos caprichos da Tita.
Por falar em gato e sapato,lembrei de gato e rato,que me leva aos meus pais e a estória que vou contar se vocês ainda não tiverem atingido aquele ponto de querer me depenar e cometer suicidio coletivo.

Outro dia Jorginho saiu bem cedo pra caçar maritaca,deixando pra trás um tempão disponível para o bel prazer de Dona Lola. Aquele não era dia de leite ou leiteiro, era dia do Geraldo,pedreiro que tava restaurando a pensão do outro lado da rua. Nunca entendi o motivo de Dona Lola aceitar o Geraldo como amante,porra,o cara era zureta,manco e magricela! Mas Dona Lola já dizia: "quem vê cara troca logo a posição!". Dona Lola e suas tiradas maravi...porra, lá vem gente de novo! Me dá um minuto que continuo depois...


(Parte 2)
Escuta que vou voltar a contar!!!
No caso do Geraldo, nem sei como Dona Lola fazia,porque ele era feio até de costas...bom,problema dela enfim...o meu problema foi ter que assistir todas aquelas cenas desagradáveis,bem em cima da coitada da mimosa,que a partir daquele dia passou a ter uma tatuagem/mancha no olho esquerdo. Geraldao e Dona Lola já se recompunham para uma eventual segunda rodada e o cafezinho quando o motor do carman guia do seu Jorginho anunciou sua chegada. Putaquemepariu,exclamei sem respirar,sentindo um calafrio subir-me a espinha. Ia dar merda. Sorte do Geraldo que o armário da sala tava vazio,foi la mesmo que Dona Lola o escondeu. Foi a porta do armário se trancar pra da sala se abrir,entrando por ela um Jorginho sorridente de orelha a orelha:
-Lolita,olha o tamanho da rolinha que peguei! Desse tamanho já nem é mais rolinha,posso chamar até de rola né querida?

-você tem uma mente doentia sabia? -respondeu papai.
-eu não...tava aqui preparando a rabada do almoço e vc me vem com essa história de rola,quer que pense em quê?
Enquanto o bate boca foi parar no quarto, Dona Lola mal podia imaginar o problema que a esperava no fundo do quintal... La estava Darcyzinho,o filho mais novo da vizinha de esquina,já de muro (ou cerca) pulada,metade do fecho eclair aberto,pronto pra aproveitar a suposta ausência de Jorginho! Dona Lola imaginara uma longa caçada de papai e já tinha agendado uma sobremesa com o adolescente espinhento.
Foi ela dar um pulinho nos fundos pra pegar a cueca nova do Jorginho e dar de cara com Darcy:
-jesus amado! - exclamou assustada.
-que é que tu tá fazeno aqui moleque,meu marido chegou mais cedo!
Darcy usou então uma expressão que daria origem ao apelido que o iria acompanhar até o caixão:
-sujeira!
-sujeiraça - replicou Mamãe - foge daqui Darcyzinho,se Jorginho te vê assim é capaz de te dar uma surra com o estiligue dele!
Enquanto isso, Jorginho tava la,peladao no quarto,esperando já impaciente pela cueca do varal. Incomodado com tanta demora, foi ele mesmo ver o que prendia sua esposa no quintal.
La nos fundos Dona Lola tentava,desesperada,convencer Darcyzinho a subir a calça que já tava nas canelas e voltar outro dia,mas o jovenzinho estava com os hormônios a pulsar e numa medida impensada resolveu se jogar pela janela da sala,caindo bem na minha frente...pergunto: onde vocês acham que ele se esconderia? No armário,óbvio.
Por obra e graça de deus,Geraldo era franzino e tava de bom humor,dando de cara com Darcyzinho,emendou logo de prima:
-entra aí filhote,onde come um,comem dois!
Sorte,muita sorte da mamãe. Papai apareceu no quintal e la estava Dona Lola,cueca na mão,álibi garantido,nada a declarar.
Cueca vestida,Jorginho se viu no direito de reclamar pela prometida rabada da sua senhora (rabada=comida=alimento). Como de hábito,sentou-se no sofá,ligou a telefunken (não sem antes resmungar que a imagem tava uma merda de novo) e esperou pelo almoço. Comia como um pacha o Jorginho...empanturrou-se de rabada,comeu um quindinzinho e quando ia se levantando pra ir ao quarto fazer a siesta notou algo estranho: seu pé direito havia grudado no olho esquerdo da mimosa...
-que porra é essa agora?!
Tão grudado tava a sola do seu sapato que quando fez força acabou se descalçando! Me lembro bem da cena e peço licença para narra-la em slow-motion:
Ao se descalçar,papai perdeu o equilíbrio e foi bruscamente tombando pra frente. No que tombava,o velho estilingue,sempre à mão,voou até o armário,atingindo a porta direita. Atrás dela estava Geraldo,que não se conteve e soltou um "fudeu!" baixinho,mas suficiente pra papai abrir a porta.
É nessas horas que vemos amigos,a verdadeira solidariedade proletaria/suburbana. Geraldo não tinha escapatoria,mas nem por isso entregou Darcyzinho,que já borrado de medo,resava pra Santo Antônio,Santa Gertrudes e todas as outras santidades que lembrava.


(Parte 3)
Desculpem o intervalo minha gente, papagaio assustado que sou, quase morri de pavor com a cena da porta direita do armário se abrindo, revelando geral e seu gutural "fudeu". Só posso justificar esse hiato gigante no causo que tava contando pelo simples fato de ter de pesar com calma, ver se valia a pena mesmo narrar o último capítulo dessa comédia trágica que levou ao óbito do jovem Sujeira. Concluí que valia, já contei quase a porra toda mesmo, o que seria um peido para quem sofre de diarréia de alpiste?
Num ligeiro flashback, vale a pena lembrar que o "fudeu"do Geraldo foi resultado da tropeçada do papai na porra do olho da mimosa. Dando de cara com o esquálido amante de sua esposa (o primeiro a ser descoberto), Jorginho sentiu subir uma semi-gofada sabor quindim com rabada. Sorte a minha que me puleiro não estava na frente! Se Geraldo já era feio limpinho, coberto de vômito ele era horrível como a necessidade! Cegado e desequilibrado pelo jato de restos alimentares, Geraldo corria feito galinha sem cabeça, não sei bem se tentando fugir ou se tentando criar no Jorginho o sentimento de compaixão por um elemento que, de tão magro, mais parecia um prisioneiro de guerra, só que todo vomitado. O que sei é que deu certo...O que quer que aquele jogging desnudo significasse, deu certo! Jorginho, recuperado do espasmo estomacal, assistiu estupefato àquela cena como quem observa uma mosca aprisionada numa garrafa: com uma combinação de nojo e pena. Preferiu abrir a porta e deixá-lo ir.
Enquanto isso, nosso valente Darcyzinho, o amante da porta esquerda do armário, ouvia tudo em meio às preces que fazia. Jurou virar devoto, prometeu estudar mais, parece que disse que se precisasse virava até Darcylia!
Nessa altura do campeonato, enquant Darcyzinho hipotecava suas promissórias religiosas, Geraldo, nosso homem-mosca-vômito já havia saído pela porta gritando:
- Obrigado senhor! Obrigado Senhor!!
Quem passava pela rua deve ter imaginado coisas incríveis... Ao mesmo tempo em que esse acontecimento sensacionalmente bizarro acontecia diante dos olhares perplexos dos transeuntes, Darcyzinho esperava pela pequena brecha divina que o salvasse. E ela não demoraria a aparecer... Geraldo, pelado e gofado, chamou a atenção da vizinhança (que parecia ter um alarme muito eficiente para a disseminação de fofocas), que imediatamente começou a borrifar hipóteses sobre o coeficiente cornual de meu papai, o Jorginho e também sobre as orientações putaicas de Dona Lola...
Estilingue em riste, meu bravo Jorginho decidira enfrentar os vizinhos na porta de casa! Não queria nem saber quem havia falado o quê para quem. Atirou antes para perguntar depois. Nisso, Darcyzinho, alegre e ao mesmo tempo preocupado por ter se comprometido em virar viado caso escapasse, aproveitou para se evadir do local do crime (ouvi isso num filme policial outro dia). Também vestido com nada além que seus parcos pêlos, o Sujeira pecou quando menos podia. Pecou pela soberba. Desfilando garboso pela sala de estar, parecia brincar com a sorte, dançava e zombava de Jorginho, pelas costas! Papai atirava uma pedra atrás da outra nos compadres e comadres fofoqueiras da região, sem se preocupar com retaliações. Não contou com Geraldo e seu espírito "revanchard", típico dos raquíticos! O magrelo preparara porrolhos embebidos em criolina e aquartelado atrás da banca de jornais, começara a atirá-los na direção de papai. Esse podia até ser corno, mas era ágil como uma lebre, treinado para escapar de ataques de maritacas! Não seriam porrolhos  envenenados os responsáveis pela sua queda...Desviou, esquivou, abaixou qual boxer cubano. Atrás dele havia alguém que não era corno, e sim um tremendo filho da puta que sacaneia os outros pelas costas, e que por autosuficiência e inexperiência jazia imóvel por sobre a pele da mimosa estendida na sala como carpete! 5 tiros de porrolho criolinado, sendo um goela abaixo, acabaram com a breve existência de Darcy Sujeira. Irônico...morreu limpo, desinfetado de criolina, no dia mais cagado de sua vida.


---FIM---

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